terça-feira, 23 de agosto de 2011

O QUE SEI DE LULA

Resistiu a participar do sindicato, foi contra a aliança de trabalhadores com estudantes, menosprezou o apoio da Igreja Católica, resistiu à campanha Diretas-Já, vetou a colaboração do PT com o governo Itamar Franco, boicotou a Constituinte de 1988, criticou o Plano Real e considerou "herança maldita" os avanços sociais de Fernando Henrique Cardoso, seu predecessor. Quem construiu esse perfil, antes de chegar à Presidência da República e deixar o poder, ao fim de oito anos de mandato, com mais de 80% de aprovação popular, só pode ser considerado um conservador e é essa a avaliação do jornalista José Nêumanne Pinto no livro O que sei de Lula, no qual chega a uma conclusão, no mínimo, surpreendente: "Lula nunca foi de esquerda".
Repórter, editor de política , escritor e, atualmente, articulista de O Estado de S. Paulo, com mais de 40 anos de profissão, Nêumanne conta, com conhecimento de causa e informações privilegiadas, a história de Luiz Inácio Lula da Silva - a ascensão admirável do menino retirante que fugiu do sertão pernambucano, do operário metalúrgico do ABC paulista, do militante sindical que ajudou a derrubar a ditadura militar e do três vezes candidato a presidente e depois titular do Palácio do Planalto. Paraibano de Uiraúna, cidade natal também da deputada Luíza Erundina, ele sabe o que custou a trajetória daquele que é, em sua opinião, o maior político brasileiro de todos os tempos.
"Meu objetivo, ao escrever esse livro, foi descobrir o homem atrás do mito", revela Nêumanne, um pesquisador incansável que consultou biografias, conferiu entrevistas, ouviu testemunhas e revirou lembranças de seus tempos de repórter, para contar os bastidores da carreira de Lula, um personagem fascinante que ele pretende ter analisado com isenção e justiça, apesar da opinião contrária daqueles que não deverão perdoá-lo por estar contando o que sabe. "Os áulicos de Lula certamente encontrarão na revelação desses incidentes motivos para execrar esse livro, da mesma forma que já condenam o autor, mas não mudarão o fato inexorável de que, como ele mesmo narrou, delatou camaradas menos aptos para levar vantagem pessoal pecuniária no princípio de sua vida profissional", prevê Nêumanne.
Há revelações inéditas, fatos inconfessáveis, conclusões incômodas. "Descobri que Lula, filho de um canalha e uma santa, um sujeito de sorte cavalar, consegue construir em cima dos equívocos, não dos acertos", afirma Nêumanne, ao explicar que, apesar de falhas e defeitos, seu protagonista se tornou um "fenômeno fantástico de popularidade porque as pessoas se identificam com ele". O jornalista lembra que Lula recebeu Leonel Brizola com hostilidade quando o político gaúcho voltou do exílio e que nunca negou sua admiração pelo governo do general Ernesto Geisel. Quem organizou a greve dos metalúrgicos do ABC, acrescenta Nêumanne, foi Frei Betto e não Lula - uma afirmação que o frade dominicano considera exagerada.
Amigos e companheiros de luta do operário-presidente poderão discordar, mas será difícil rebater o autor. "Poucas pessoas armazenaram tanta informação sobre a política brasileira", observa na Apresentação do livro o professor Leôncio Martins Rodrigues, lembrando que "mais do que simples repórter, descobridor e narrador de fatos, Nêumanne é um analista capaz de aprofundar e conectar os eventos particulares a situações mais gerais, às teorias e interpretações sobre o Brasil". Os fatos narrados, acrescenta o cientista político, são fatos que Nêumanne viveu. O autor conhece os personagens e, em alguns casos, esteve presente na cena dos acontecimentos que narra.
Paralelamente à biografia de Lula, em parte baseada em obras de outros biógrafos, como Denise Paraná e Audálio Dantas, além de entrevistas do próprio biografado, Nêumanne rememora o cenário da política e a atuação de políticos brasileiros no contexto das últimas décadas, da ditadura de Getúlio Vargas aos primeiros meses de governo de Dilma Rousseff. A construção de Brasília, o golpe de 1964, o quadro econômico e as denúncias de corrupção ocupam páginas de análise lúcida e competente. Os assassinatos de petistas ligados a Lula, como Celso Daniel no ABC e Toninho (Antônio da Costa Santos) em Campinas, são tratados com apurada técnica de reportagem. Outro destaque é o perfil que o autor traça de personagens como José Alencar, Duda Mendonça e José Dirceu.
Nêumanne dá a Lula o título de "perdoador-geral" dos escândalos que estouraram em sua administração e chama o assessor especial Marco Aurélio Garcia de "bajulador-geral" da República. "Quem conhece Lula - como eu conheço - sabe muito bem que ele não mudou tanto assim desde que emergiu no país como líder dos sindicalistas do ABC paulista até seus dias de apogeu no poder republicano", afirma o jornalista, ao criticar a política externa adotada pelo ex-presidente com relação a Cuba e ao Irã, com assessoria de Garcia e do ex-chanceler Celso Amorim. Embora considere seu texto imparcial, Nêumanne não resiste à ironia, ao lembrar a formação de poucos estudos de Lula. "Noço guia universal", escreve o jornalista, referindo-se ao ex-presidente.
Dilma Rousseff, na qual Lula apostou seu futuro, abrindo mão de uma eventual e provável reeleição, é a personagem central no Epílogo. Um atraso na publicação do livro, que deveria ter sido lançado em dezembro - após a eleição de Dilma, mas antes de Lula descer a rampa do Planalto - acabou dando melhor fecho à história. O que parecia mais especulação ganhou consistência, ao se completarem seis meses de governo. Ao registrar mudanças de rumos, ou pelo menos de estilo, na administração federal, Nêumanne transcreve os elogios que Dilma fez a Fernando Henrique na comemoração dos 80 anos do ex-presidente, a quem definiu como "acadêmico inovador" e "político habilidoso", sem mais referência à "herança maldita" da qual Lula falava na campanha eleitoral.
José Maria Mayrink - O Estado de S.Paulo
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