sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A ARTE DE BLINDAR NO PLANALTO CENTRAL

Artigo de Fernando Gabeira
Os idos de 64 já vão longe, embora existam algumas semelhanças com o presente. Hoje a situação internacional é favorável à democracia, o Brasil está mais ligado ao mundo. E a tese fundamental é de que sociedade tem a capacidade de resolver por si a grande crise em que está metida.
Essa tese é também a razão da nossa esperança, não há a mínima condição de abandoná-la. No entanto, ela sofreu um golpe no processo que envolveu o Supremo e o Senado, culminando com a suspensão das medidas cautelares aplicadas ao senador Aécio Neves.
Já é grande o número de pessoas que não acreditam em solução democrática para a crise. Quem observar o discutido discurso do general Mourão, que admitiu a possibilidade de intervenção militar, verá que ele coloca como um dos fatores que a justificariam a incapacidade da Justiça de punir a corrupção no mundo político. E a melhor maneira de negar essa perspectiva sombria é, precisamente, demonstrar o contrário: que a Justiça cumprirá o seu papel, restando à sociedade completar a tarefa com mudanças em 2018.
O Supremo ia nesse caminho quando esteve prestes a derrubar o foro privilegiado. Quem assistiu às discussões teve a impressão de que venceria a expectativa da sociedade de que a lei vale para todos. Mas o mesmo Supremo que mostrava tendência a derrubar o foro privilegiado suspendeu a decisão e, em seguida, deu um passo no sentido oposto: ampliou a blindagem dos políticos, submetendo medidas cautelares ao crivo do Parlamento.
Quem ouviu o discurso da ministra Cármen Lúcia num primeiro momento teve a impressão de que sua posição era contrária ao foro privilegiado. Na votação posterior, porém, recuou. Titubeando, mas recuou.
O Supremo decidiu abrir mão de uma prerrogativa. Afastar do mandato ou determinar recolhimento noturno não é o mesmo que prisão. É uma contingência das investigações.
Claro que, ao entregar a decisão ao Senado, as medidas cautelares seriam derrubadas. Entre todos os discursos, o mais cristalino foi o do senador Roberto Rocha. Ele citou um poema que dizia mais ou menos isto: se deixarem levar alguém hoje, amanhã levarão outro e o último estará sozinho quando vierem buscá-lo. É uma ideia interessante no contexto de países totalitários, a prisão é ameaça válida para todos os indivíduos. Mas Rocha não estava falando de um país, e sim do próprio Senado, uma Casa cheia de investigados pela Lava Jato cavando a última trincheira na areia movediça.
Outro passo atrás está a caminho no Supremo: recuar da prisão após sentença em segunda instância. Isso significa a possibilidade ser preso só depois de morto, no caixão!
Não sei como esses recuos serão metabolizados. Certamente, tornam mais difícil o caminho de uma solução democrática. Provocam indiferença enojada em muitas pessoas, em outras apenas reforçam o desejo de uma saída autoritária.
Apesar de tudo, não se pode dizer que todo o Supremo e todo o Senado tenham cavado mais um fosso de decepção. Tanto num como no outro há vozes discordantes.
No Supremo deu empate, resolvido com um hesitante voto de Minerva. No Senado, pouquíssimos entre os que votaram contra Aécio defendem a tese de que o Supremo deveria ter a decisão final, retomar o poder de definir medidas cautelares sem consultar o Congresso.
Isso significa que a maioria, incluído o PT, já considera como uma conquista irreversível o poder de dar a palavra final. Ganharam um escudo e vão usá-lo quando quiserem.
Imagino que o STF tenha tomado a decisão de abrir mão da palavra final na expectativa de evitar uma crise entre instituições, num momento de desemprego, tensões políticas. Mas certas crises têm de ser enfrentadas e vencidas. O Congresso está de costas para a sociedade. Se a Justiça, no caso de Aécio, não se impõe e, no caso de Temer, não consegue permissão para investigá-lo, acaba transmitindo a impressão de que é impossível a lei valer para todos.
O Supremo, penso eu, poderia voltar a dar um passo adiante, retomando a votação do foro privilegiado. O ministro Alexandre de Moraes pediu vista. É estranho que um ministro não tenha ainda posição sobre o tema. Ele tem concedido entrevistas sobre revisar a prisão em segunda instância, o que significa caminhar no sentido inverso.
Moraes transmite a impressão de que está pronto para dar um passo atrás e precisa estudar muito ainda para votar um passo à frente. “Which side are you on?”, pergunta a canção de Dropkick Murphys.
O caminho que reforça o velho sistema político-partidário e fortalece a impunidade acaba sendo um grande obstáculo à democracia, embora se revista de uma retórica democrática, sempre defendendo a Constituição, o direito dos acusados, a liberdade. Mas algumas belas abstrações se revelam, na prática, apenas uma forma de proteger um sistema poderoso e sofisticado de corrupção.
A versão poética do senador Roberto Rocha é mais próxima da realidade. Se deixarem levar um a um, acabam levando todos. É uma variante dramática do verso “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”. Mas apenas próxima da realidade: alguns votaram com naturalidade contra a blindagem não só de Aécio, mas do conjunto dos parlamentares.
Essas batalhas, contudo, não se resolvem apenas dentro das instituições. Elas dependem da sociedade, ou pelo menos de quem compreende que e a solução autoritária é um trágico passo atrás. Um passo razoável seria acionar mais o que resta de apoio nas instituições e travar um amplo diálogo sobre como evitar o pior. No desespero da autodefesa, o sistema político-partidário não hesita em pôr em risco a própria democracia.
Gostaria de estar dramatizando. Sei que 64 está distante, todavia a conjuntura externa favorável e o nível de informação ampliado na era digital são fatores que não bastam para garantir uma saída democrática. Ela precisa de uma pequena ajuda dos amigos.
Para se defender, o sistema político não hesita em pôr a democracia em risco.
Artigo publicado no Estadão em 20/10/2017
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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

DEMISSÃO EM MASSA

O prefeito Ivo Gomes (PDT) deu início à demissão em massa de professores temporários em Sobral. O repórter Wellington Macedo apurou que mais de 600 profissionais da Sede e dos distritos perderão o emprego. O motivo seria para evitar o pagamento do 13º salário.
Ivo esperou o Dia dos Professores passar, no último domingo, para lançar a bomba. As demissões começaram ontem, com 300 docentes desligados da Prefeitura. Só nesta quarta-feira (18), já são 50. A previsão é que outros 300 possam ser demitidos até sexta-feira.
Uma manifestação está marcada para hoje às 17h no pátio da Prefeitura de Sobral.
Em tempo
Os professores temporários que não foram demitidos estão tendo a carga horária reduzida, de oito horas para quatro.
Indignação
Os sobralenses estão revoltados com o prefeito Ivo Gomes. Ouça o que foi dito por uma senhora no programa de Bené Fernandes, na Paraíso FM, em Sobral.
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FALANDO FRANCAMENTE

Fernanda Odilla, da BBC Brasil em Londres
Marina Silva, de 59 anos, já foi vereadora, deputada estadual, senadora por dois mandatos, ministra do Meio Ambiente e por duas vezes candidata a presidente do Brasil. Questionada quando vai anunciar se disputa ou não a terceira eleição presidencial, ela diz "logo, logo".
A ex-senadora prevê uma eleição "cheia de candidatos" e uma tendência de "se aprofundar a violência e a mentira na campanha". Ela poupa de críticas mais duras o ex-presidente Lula - de quem foi ministra -, e chama o deputado Jair Bolsonaro de "populista".
Marina rebate as críticas de ter sido omissa em momentos em que muitos aguardavam um posicionamento ou opiniões firmes sobre temas centrais ou disputas políticas, dizendo que "o problema é que o Brasil está tão acostumado com a polarização que quando tem um posicionamento que não está sob o guarda-chuva vermelho ou o azul, as pessoas preferem dizer que não é um posicionamento".
Ela assegura que manifestou sua opinião sobre todos os temas que pautaram o debate político - que defende com veemência a Lava Jato, que foi a favor do impeachment de Dilma Rousseff, que não houve "golpe", mas que preferia a cassação da chapa Dilma-Temer.
Para Marina, o Congresso tem dificuldade em cassar seus integrantes por "corporativismo" e várias legendas de diferentes espectros políticos se unem para "salvar a própria pele". "Aqueles que nunca se juntaram para defender saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, agora estão unidos para evitar a punição dos crimes que cometeram", diz, citando o PT, PMDB, PSDB e DEM.
Evangélica, defende o Estado laico. Ambientalista, diz que os céticos em relação ao aquecimento global são minoria e deveriam adotar o princípio da precaução para evitar que o homem destrua a natureza.
Leia os principais trechos da entrevista concedida à BBC Brasil em Londres, onde Marina participa de um debate e tem buscado experiências em diferentes áreas, como educação e meio ambiente, que possam ser aplicadas no Brasil.
BBC Brasil - A senhora tem viajado para fazer palestras na Europa e nos EUA. Na quarta-feira, fala no King's College, aqui em Londres. Que mensagem traz nesse momento de turbulência política e crise econômica no Brasil, momento que a senhora definiu como "um poço sem fundo, por ser pior que o fundo do poço"? Há espaço para otimismo?
Marina Silva - Tem espaço para ter persistência. Venho (à Europa) para uma série de compromissos. Vim para uma palestra sobre mudanças climáticas, depois fui à Holanda onde conheci uma série de experiências de inovação tecnológica, educação, ativismo social, agricultura, financiamento de novos projetos voltados para a sustentabilidade. Aqui em Londres, fomos a uma escola interessante em que o currículo integra valores voltados para a sustentabilidade. Quando disse que a gente parecia estar saindo do fundo do poço para uma espécie de poço sem fundo, me referia a algo grave acontecendo no Brasil, que é a pressão sobre a Lava Jato, uma das coisas mais importantes depois da nossa redemocratização. O trabalho que estão fazendo ao mostrar que a lei é para todos, que a corrupção sistêmica deve ser combatida pela raiz, agora está sendo ameaçado por uma ação da dita classe política tentando mudar as regras do jogo.
BBC Brasil - De onde exatamente vem essa pressão?
Marina Silva - Essa pressão vem do Congresso, vem do próprio Executivo que acaba de encaminhar um processo para o Supremo propondo que não seja mais válida a prisão daqueles que foram condenados em segunda instância. E, agora, o julgamento do próprio presidente Temer pelo Congresso e a decisão do Supremo que deu ao Congresso a última palavra em relação à punição dos parlamentares. Ou seja, é o único segmento da sociedade que terá poder de fazer o seu autojulgamento. Como se não bastasse o foro privilegiado, agora terão o autoindulto privilegiado. Isso será para o Aécio Neves, mas também será para todos os demais que se encontram na mesma situação que ele, envolvidos em graves denúncias de corrupção.
BBC Brasil - A senhora já foi senadora, conhece muito bem aquela casa. Qual é a dificuldade de se cassar os próprios pares? Prevalece o corporativismo?
Marina Silva - Além do corporativismo, agora tem outros fatos. Tivemos cassações importantes como a do senador Arruda e do próprio Antônio Carlos Magalhães...
BBC Brasil - Desculpe-me por corrigir a senhora, mas cassados foram o Luiz Estevão, o Demóstenes Torres e, mais recentemente, o Delcídio Amaral. José Roberto Arruda renunciou (Antônio Carlos Magalhães também renunciou)...
Marina Silva - Sim, mas por uma manobra. Renunciou porque sabia que ia ser cassado. A renúncia não foi em função de um ato de grandeza; foi porque tinha certeza de que seria cassado e, para evitar perder direitos políticos e ficar inelegível fizeram a renúncia. Agora, para além do corporativismo, temos o fato de que são muitos os investigados e comprovadamente culpados no âmbito da Lava Jato. Partidos que antes se combatiam agora estão unidos. PT, PMDB, PSDB, DEM, todos estão juntos para salvar a própria pele, a pele dos seus líderes. É por isso que a dificuldade agora é bem maior. Aqueles que nunca se juntaram para defender saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, agora estão unidos para evitar a punição dos crimes que cometeram.
BBC Brasil - A senhora falou da Lava Jato e o medo da pressão, mas acha que em algum momento a operação cometeu algum erro, alguma falha capaz de colocar a reputação da investigação em risco?
Marina Silva - A Lava Jato vem fazendo um trabalho exemplar e espero que se transforme no novo paradigma para a Justiça brasileira. Todos os mecanismos das instituições públicas têm suas próprias formas de controle. A Lava Jato vem trabalhando junto com o Ministério Público e a Polícia Federal e os que são investigados têm direito à ampla defesa. O problema é que as provas são muito contundentes. Pessoas com mala de dinheiro, um apartamento com milhões de reais dentro de caixas, comprovações de depósitos em contas bancárias no exterior. O documento fala por si mesmo.
O trabalho que está sendo feito é respeitável. E, claro, os juízes não podem ser colocados como se eles estivessem cometendo irregularidades. Infelizmente, uma boa parte dos investigados gostaria de ter a prerrogativa de estar julgando seus investigadores e julgadores. Foi por isso que o senador Renan Calheiros apresentou a lei do abuso do poder, que juntou PT, PMDB, PSDB para tentar aprovar o projeto de anistia e é por isso que agora, igualmente, estão juntos para acabar com (a prisão) depois de julgamento em segunda instância.
BBC Brasil - Voltando à pergunta inicial, a senhora está fazendo um tour pela Europa, mas queria saber se pretende fazer o mesmo no Brasil, como Lula está fazendo, como Fernando Haddad, Jair Bolsonaro e João Doria. A senhora pretende dar uma volta pelo Brasil?
Marina Silva - Faço isso há mais de 30 anos e não apenas em período eleitoral. A vida toda me dediquei a andar nos Estados, nos municípios mais pobres, conhecendo a realidade da sociedade brasileira.
BBC Brasil - A senhora faz isso sem clima de campanha?
Marina Silva - Sem clima de campanha e acho que esse é o melhor momento para que possamos fazer as coisas. O problema é que as pessoas deixam para fazer determinadas coisas nos períodos eleitorais. Entendo que as soluções para o mundo em crise que a gente está vivendo têm uma complexidade tamanha... é bom para a gente conhecer outras experiências.
O que está dando certo na educação no Brasil pode ter uma contribuição para a educação em outras regiões do mundo. Não podemos mais nos fechar como se fôssemos uma ilha. O Brasil é rico em boas ideias. Quando fui ministra do Meio Ambiente, não inventamos a roda. O que fizemos foi transformar as boas ideais da sociedade brasileira, do setor empresarial, da academia, dos movimentos sociais, em políticas públicas. Foi graças a isso que conseguimos reduzir em 80% o desmatamento por dez anos.
BBC Brasil - A gente estava falando do clima de campanha e de aparecer a cada quatro anos e uma das principais críticas que fazem à senhora é que foi omissa em momentos importantes. Dizem que a senhora só se expõe às vésperas de períodos eleitorais. Como a senhora responde a essas críticas? É intencional, para se preservar?
Marina Silva - Estou fazendo meu trabalho como sempre fiz, mas não sou parlamentar, não tenho uma função pública. Sou uma professora que sobrevive do trabalho que faz. Conseguimos criar a Rede mesmo em meio às pressões contrárias e tenho me posicionado sempre em relação a todos os temas.
O problema é que o Brasil está tão acostumado com a polarização que quando tem um posicionamento que não está sob o guarda-chuva vermelho ou o azul, as pessoas preferem dizer que não é um posicionamento. Eu sempre defendi a Lava Jato, como eles não defendem, preferem dizer que não é um posicionamento. Eu sempre defendi que o melhor caminho era o da cassação da chapa e que o impeachment não é golpe, está de acordo com a Constituição, o problema era que não ia alcançar oobjetivo que é passar o Brasil a limpo, Dilma e Temer são faces da mesma moeda. O PT e o PMDB cometeram os mesmos crimes juntos em relação à Petrobras, BNDES, Caixa Econômica, Banco do Brasil, aos fundos de pensão. O melhor caminho era a cassação da chapa.
Como existia um grupo que queria abocanhar o poder e um outro que queria permanecer, eles acham que isso não era um posicionamento. É um posicionamento diferente. No Brasil, as pessoas estão tão acostumadas com a polarização que nem admitem que possa existir uma outra voz, um outro lugar de fala, mas essa fala existe. Não tem a mesma audiência daqueles que ficam disputando o poder pelo poder.
BBC Brasil - Ter um mandato facilitaria ecoar seus posicionamentos?
Marina Silva - O importante é ter um posicionamento, porque tem muita gente que tem mandato e está repetindo as mesmas coisas, da mesma forma. Tem muita gente que até fala demais e depois desconstrói tudo o que falou. Tem muita gente que falou tanta coisa e agora estão no mesmo barco.
Estamos numa crise dramática como essa e tudo que vejo são pessoas preocupadas em ganhar o poder. Não estão pensando em como combater a corrupção, como prevenir a corrupção e principalmente como promover uma gestão pública eticamente responsável, para resolver o grave problema da educação brasileira em que a maioria dos jovens não tem acesso à educação de qualidade, para resolver o problema da violência em que as pessoas estão perdendo suas vidas nas comunidades por falta de segurança.
BBC Brasil - Como faz para resolver isso, são tantos problemas juntos...
Marina Silva - Em primeiro lugar é preciso dizer claramente na hora de disputar a eleição o que vai fazer em relação a essas questões. Por exemplo, em relação à educação. Claro que temos problemas em relação a recursos, mas pior que a falta de recurso é a falta de estratégia para que uma educação não fique parada no tempo. O mundo inteiro está atualizando seus processos de ensino e aprendizagem, levando os jovens e as crianças a entenderem a escola não como um lugar onde se adquire uma profissão fixa, mas como uma porta de entrada que possibilita muitas portas de saída.
Esse debate está sendo feito pelos educadores e por vários movimentos, mas infelizmente o poder público não tem sido capaz de acompanhar. E agora, com a crise, uma boa parte dos nossos jovens que começaram a ter acesso ao ensino superior, mesmo ao ensino privado que não tem a mesma qualidade do público, perderam esses meios que dispunham na crise gerada inicialmente no governo Dilma e agora no governo Temer.
BBC Brasil - Falando neles, a senhora sente que perdeu a oportunidade de ocupar um vácuo de poder que se abriu?
Marina Silva - É muito cedo para dizer o que se perdeu e o que se ganhou. Eu digo que a derrota e a vitória só se mede na história. Temos que ter paciência para aguardar o processo político. Não entendo que a política é um vácuo a ser ocupado. É um processo a ser conquistado no debate, não embate da polarização que tanto mal já fez ao país, mas na troca de ideias dizendo o que a gente acha que é melhor para a saída da crise, para que o país volte a crescer, retome os investimentos, para que se controle o gasto público, a inflação, para que se possa reduzir juros.
A política tradicional tem muito isso de dizer que tem que ocupar. Essa ideia às vezes esconde um pensamento autoritário, que subtrai o eleitor, que subtrai o cidadão. Quem ganha uma eleição com base no marqueteiro acha que é só uma questão de ocupar o espaço, não é iss. É de construir, conquistar, numa relação transparente e aberta com cada cidadão.
BBC Brasil - A senhora já foi ativista política, vereadora, deputada estadual, senadora por dois mandatos e ministra. A senhora conhece muito bem o eleitor, imagino eu. Sente que há uma fadiga com o político de carreira, o tradicional? Sente que o eleitor hoje procura algo diferente? E pontuo aqui que diferente não necessariamente é melhor. Mas há uma busca pelo ainda não testado?
Marina Silva - Acho que a sociedade está procurando algo que dê resposta, que dê efetividade. O problema é que, muitas vezes, esse sentimento de cansaço com a incompetência, com a falta de transparência, com a corrupção, com a lógica do poder pelo poder é usado para tentar desviar do objetivo principal. As manifestações de 2013 foram muito claras. As pessoas querem saúde, educação, transporte de qualidade, emprego para poder viver e criar suas famílias, querem a possibilidade de um transporte que as leve para o trabalho e facilite o entretenimento.
As pessoas foram muito claras. Aí o que alguns partidos e lideranças políticas fizeram? Disseram que o que a sociedade quer é uma reforma política. Veja bem, retiraram do foco o mais importante e levaram para outro caminho. E agora que estão fazendo a reforma, não é a reforma política que a sociedade brasileira quer para ampliar participação, para sair do papel de espectador e assumir o protagonismo. É uma reforma para dar mais poderes aos partidos tradicionais, aos caciques, mais dinheiro às campanhas milionárias e aos marqueteiros a peso de ouro e mais espaço para permanecerem no poder independente da vontade do povo.
BBC Brasil - Falando em reforma política, essas mudanças pontuais feitas no Congresso afetam a Rede de que forma? A senhora sente que a Rede pode estar ameaçada?
Marina Silva - Há um cerco que está sendo feito pelos partidos tradicionais, o PT, PMDB, PSDB, DEM, para que não seja possível uma inovação na política brasileira. Por isso estão direcionando o fundo partidário para eles, o tempo da propaganda eleitoral para eles e a cláusula de barreira para que os novos partidos tenham dificuldade de se firmar no sistema político brasileiro. É claro que a Rede sofre as consequências dessa articulação para inibir a inovação.
A Rede é um partido que nasce comprometido em melhorar a qualidade da política, melhorar a qualidade das instituições públicas. Defendemos o voto independente, somos favoráveis, para criar uma concorrência idônea com os partidos políticos. Hoje, eles têm o monopólio da política e é por isso que não estão muito preocupados em qualidade, em inovação. Eles põem os mesmos quadros, fazem os mesmos discursos e a lógica é a do poder pelo poder.
BBC Brasil - Quando a gente olha as pesquisas de intenção de voto, o ex-presidente Lula lidera com folga. Como a senhora explica essa força? Esse discurso de vítima que ele e o PT assumiram tem impacto?
Marina Silva - Temos que compreender as pesquisas como registro de um momento e, obviamente, ainda temos um caminho muito longo pela frente. A sociedade brasileira está formando ainda a sua opinião sobre sua escolha. Não acho que seja um dado de realidade já estabelecido. E, é claro, espero que o debate em torno das ideias, das propostas, possa fazer com que os eleitores criem sua própria identificação com esse ou aquele projeto.
BBC Brasil - Mas o que explica o ex-presidente estar liderando mesmo tendo sido condenado por corrupção?
Marina Silva - Eu acho que existe uma parte do eleitorado que trabalha muito com a ideia de segurança. Boa parte das pessoas está trocando liberdade por segurança. A campanha de 2014 foi muito violenta, com muito dinheiro, calúnia e difamação. Havia a história de que se não fosse eleita a presidente Dilma, as pessoas iriam perder o Bolsa Família, o Pronatec, o Minha Casa Minha Vida, perder todas as conquistas sociais. Isso criou uma insegurança nas pessoas.
Mas essa lógica em se fazer uma escolha em função do medo, não é a melhor forma de construir uma sociedade que tem sua própria autonomia. As conquistas feitas no governo do PT, do PSDB, de quem quer que seja, não são para ser fulanizadas nem pelos partidos nem pelos governantes. São para ser institucionalizadas. Se são direitos, as pessoas os têm assegurados e têm a liberdade de escolher aquele que acham que é o melhor para dirigir o país.
BBC Brasil - A senhora acha que (a liderança do Lula) vem do medo de perder benefício adquirido ou de se acreditar que ele é inocente, que é vítima, que está sendo perseguido?
Marina Silva - Acho que pode ser um misto de várias coisas. Lula foi presidente por duas vezes, uma liderança sindical histórica. O importante nesse momento é pensar que pessoas virtuosas devem criar instituições virtuosas para lhes corrigirem quando falharem. Os acertos não podem ser usados para não dar conta dos erros que foram praticados. Nesse momento a reflexão ainda está em curso no Brasil. Vamos ter, me parece, uma disputa com muitos candidatos.
BBC Brasil - Jair Bolsonaro. Ele é um candidato com posições conservadoras, às vezes extremas. O que explica ele estar empatado tecnicamente com a senhora e que tipo de segmento da sociedade ele representa? Tem alguma chance dele ir para o segundo turno?
Marina Silva - Como eu disse, ainda é muito cedo. Nesse momento há uma exacerbação, em várias regiões do mundo, do populismo, tanto de direita, como de esquerda. E acho que a sociedade haverá de ter a sabedoria de fazer a correta mediação para encontrar um novo caminho para seus problemas que não seja o populismo de direita, nem o populismo de esquerda.
BBC Brasil - Por que a senhora acha que ele é populista?
Marina Silva - Porque acho que quando você sinaliza para a sociedade que pode resolver as coisas a qualquer custo, a qualquer preço, como se isso fosse apenas uma questão de força, isso tem um viés populista muito forte. Não acredito nas coisas que são resolvidas de forma violenta, excludente. Os processos políticos são muito mais complexos. O Brasil é um país com uma diversidade cultural fantástica. Um país que reconquistou a sua democracia a duras penas. Não acho que exista espaço para o autoritarismo, pelo menos eu espero que não exista espaço para saídas autoritárias, para saídas preconceituosas, contra índios, contra mulheres, contra negros, contra quem quer que seja, quer por sua condição social, por sua orientação sexual ou por sua condição econômica.
BBC Brasil - Lhe assusta a popularidade de Bolsonaro neste momento?
Marina Silva - Eu acho que numa democracia a gente tem que estar aberto para lidar com essa diversidade. Em vez de ficar assustado, a gente deve é debater as ideias em que acredita, apresentar alternativas. Eu sou professora, e acredito muito na Pedagogia. Acho que, nesse momento, vivemos no Brasil um processo altamente pedagógico.
Gosto muito da ideia de que sábios são os que aprendem com os erros dos outros e estúpidos são os que não aprendem nem com seus próprios erros. Já vivemos graves problemas de erros de corrupção, já vivemos o gravíssimo problema do autoritarismo com a ditadura. Se não fomos capazes de aprender com os erros dos outros, pelo menos não temos o direito de deixar de aprender com nossos próprios erros.
BBC Brasil - A senhora disputou a eleição presidencial duas vezes. Que erros a senhora cometeu e que agora não repetiria?
Marina Silva - Não sei bem se isso foi um erro, mas nas duas campanhas entrei acreditando que iria haver um debate, mas o que houve foi um embate. Eu acreditava que os candidatos iriam apresentar um programa de governo e eles não apresentaram. Agora, mesmo que eles não tenham apresentado, eu jamais poderia deixar de apresentar, porque não se pode concorrer à eleição para um país como o Brasil sem apresentar um programa de governo. Sem dizer o que se vai fazer para a saúde, a educação, segurança pública, infraestrutura, proteção do meio ambiente. Mesmo que eles escolhessem o embate, a calúnia, a desconstrução, eu não poderia ir por outro caminho. Eu sempre digo que é melhor sofrer injustiça do que praticar a injustiça.
BBC Brasil - Algum motivo para achar que vai ser diferente em 2018?
Marina Silva - A realidade já deu uma indicação muito forte de que há uma tendência de se aprofundar a violência, a mentira, a desconstrução e as assimetrias em termos dos meios para se fazer a campanha, como por exemplo o tempo de televisão. Se for candidata, terei apenas 12 segundos na televisão, contra os muitos minutos dos grandes partidos.
BBC Brasil - O que a senhora pode falar em 12 segundos? Meu nome é Marina, vote em mim?
Marina Silva - Eu acho que em 12 segundos dá para pelo menos dizer que você está ali, e tentar fazer o processo por outras alternativas, nas redes sociais, no contato direto com as pessoas. Enfim, você tem uma realidade que é difícil, mas não pode se render a essas circunstâncias, senão eles já estarão vitoriosos a priori. Eles criaram todas as cercas. E eu espero que o povo brasileiro possa criar todos os meios para que fique sob seu controle a prerrogativa de que o poder emana do povo, não do marqueteiro, não do dinheiro, não das estruturas.
BBC Brasil - Quando a senhora vai lançar sua candidatura? Vamos ter que esperar até março?
Marina Silva - Estou em processo de decisão e com um senso de responsabilidade muito grande com a crise política, econômica, de valores, que está acontecendo no Brasil.
BBC Brasil - Essa decisão é do tipo quando lança ou se lança?
Marina Silva - A decisão é sobre a melhor forma de contribuir. Como seria mais efetiva a minha contribuição. Porque assim que chegar à convicção de onde ela é mais efetiva, é ali que estarei.
BBC Brasil - Mas o que impediria a senhora de concorrer? O que lhe tiraria do jogo?
Marina Silva - É essa a avaliação que eu lhe falei. Se eu chegar à conclusão que a forma mais efetiva de ajudar a melhorar essa situação que o Brasil está vivendo, e digo ajudar, porque não acredito que ninguém sozinho possa ter uma saída para a crise. Se chegar à conclusão de que a melhor saída é não ser candidata, então, é isso que hoje está ocupando parte do meu tempo.
BBC Brasil - Mas a Rede lhe pressiona para participar?
Marina Silva - Com certeza a Rede tem desejo de ter uma candidatura e a sociedade brasileira quer uma candidatura que não esteja identificada com a crise que aí está. E eu tenho um senso de responsabilidade coletivo e pessoal com os mais de 20 milhões de votos que tive, mesmo concorrendo com adversários que tinham condições de estrutura muito maiores do que eu, e além dessas estruturas legais, ainda contavam com o mundo do crime, com montanhas de dinheiro para fraudar as eleições, como fraudaram.
BBC Brasil - A senhora tem conversado com o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, e eu lhe pergunto se ele vai sair candidato e se for, será candidato a quê?
Marina Silva - Eu nunca conversei com o ministro Joaquim Barbosa sobre política. Estou falando sério! Eu conversei com o ministro, sim, mas foi no contexto da rebelião que o presidente do Senado, Renan Calheiros fez, de não cumprir a ordem do Supremo. E naquele momento delicado eu conversei com ele e com o ministro Ayres Brito sobre aquela crise.
Não falamos de filiação, não falamos de candidatura. Mas eu acho que o ministro Joaquim Barbosa é uma pessoa altamente relevante para a política brasileira e se ele desejar dar sua contribuição, será bem-vinda e necessária para ajudar a melhorar a qualidade da política, melhorar a qualidade da democracia. Mas essa é uma decisão que ele próprio está avaliando, e até esse momento não conversamos especificamente sobre isso.
BBC Brasil - Conhecendo bem o Executivo e o Legislativo, como seria sua relação com o Congresso? Pois o ex-presidente Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já falaram que é muito difícil negociar com o Congresso, e que muitas vezes você é forçado a firmar alianças, colocar cargos e emendas no meio de negociações. Enfim, nesse atual modelo político, haverá outra forma de se conseguir aprovação de projetos e reformas ou o presidente será eternamente refém do Congresso?
Marina Silva - Eu acredito profundamente que existe outra forma. Se não acreditasse, não teria saído candidata em 2010 e nem em 2014. O problema é que a forma com que se ganha determina a forma em que se governa. Se para ganhar, você se junta a todos que têm uma visão fisiológica do processo político, é dessa forma que vai governar.
Não imagine que você vai ganhar uma eleição com fisiológicos e vai conseguir fazer um governo não fisiológico. Não imagine que você vai ganhar uma eleição com base no abuso do poder econômico e que depois esse mesmo abuso do poder econômico não vai aparecer no momento de governar. É fundamental ganhar, mas com base num programa, com base em alianças programáticas.
Não sou daqueles que acham que não se deve fazer alianças. E também não acho que só existem pessoas boas no meu partido. Existem em todos os partidos. O problema é que eles ficam no banco de reservas. Tem gente boa no PT, no PMDB, no PSDB, em todos os lugares. E essas pessoas precisam vir à cena política e talvez este seja o momento para que aqueles que não traíram os ideais do seu partido, possam ajudar a melhorar a qualidade da política, possam inclusive contribuir para que seus partidos reconheçam seus erros e se reinventem.
Não há como ter uma boa árvore se o ecossistema estiver doente. É preciso mudar o ecossistema político brasileiro. A Rede pretende ser uma força política que quer contribuir com essa mudança. Por isso, defendemos as candidaturas independentes, para que as pessoas possam dispor do processo político, criar uma concorrência idônea com os partidos e a gente ter novos quadros na política. Quadros que virão com base em um programa, quadros que virão com uma plataforma registrada na Justiça Eleitoral, com base em uma história de vida na sociedade voltada para a saúde, educação, inovação, enfim, para os temas de interesse do cidadão.
BBC Brasil - Um passo já foi dado nesse sentido. A Procuradora-Geral da República deu parecer favorável à candidatura independente.
Marina Silva - Eu acho que é um caminho a ser perseguido. Eu defendo essa ideia desde que, em 1996, conheci as candidaturas cívicas na Itália. Depois conheci os jovens que foram eleitos no Chile pelas listas independentes, e outras experiências. Acho que para o Brasil isso vai fazer muito bem, para quebrar o monopólio dos partidos sobre a política, e para fazer com que eles também estejam mais atentos em relação à qualidade de seus quadros, em relação à renovação política e à inovação política, buscando uma nova linguagem.
Eu digo que está surgindo um novo sujeito político. Existe um outro ativismo que não é mais o ativismo que conhecemos, do passado, dirigido pelo partido, pelo sindicato, pelo líder carismático. É o ativismo das pessoas, o que chamo de ativismo autoral. É preciso criar instituições políticas atualizadas, para poderem ter uma relação, alguma conectividade com esse novo ativismo, com esse novo sujeito político.
BBC Brasil - Mudando um pouco de assunto, a senhora já se manifestou favorável a uma reforma da Previdência, e que se ainda fosse senadora votaria a favor, mas mudaria os pontos "esdrúxulos". Que pontos seriam esses?
Marina Silva - O Brasil precisa de reformas, tanto é que a Dilma fez reformas, o Lula fez reforma da Previdência, o Fernando Henrique fez reforma da Previdência, e o Temer está tentando fazer. O problema é que a reforma dele padece de vários problemas, como por exemplo, está sendo feita por um governo que não tem credibilidade, não tem legitimidade, e usa as reformas para tentar se sustentar no poder, ouvindo apenas um lado, que é o lado do empregador, negligenciando o lado dos trabalhadores.
Um outro problema é que a reforma que ele apresentou, sem debate com a sociedade, tem questões que são completamente inaceitáveis, como, por exemplo, uma pessoa ter que trabalhar 49 anos ininterruptos para poder fazer jus a sua aposentadoria integral. Isso por si só já contaminou todo o debate da reforma.
Eu acho que o Brasil tem que ter reformas, não esta que está sendo feita. Reformas que sejam pactuadas com a sociedade para que tenham legitimidade na hora de sua implementação. Esse aspecto do tempo de serviço demonstra o desprezo que se tem pelo debate e pelas conquistas históricas dos trabalhadores.
BBC Brasil - A reforma da Previdência é apontada como necessária para o equilíbrio das contas públicas, a senhora já alertou várias vezes para a necessidade de se cobrir o deficit público. Uma outra fonte de recursos seriam as privatizações. A senhora é contra ou a favor de se privatizar? E por que o tema privatização virou um grande tabu no Brasil?
Marina Silva - Eu acho que esse tabu quem acaba criando são os partidos da polarização. Durante suas campanhas, esses partidos trabalham com rótulos ao invés de apresentar um programa. Um diz que o outro é Estado demais, e o outro diz que aquele é Estado de menos. Em lugar de pensar o que é melhor para os trabalhadores, para os empresários, para os homens, mulheres, crianças e idosos.
Não gosto desse debate entre Estado máximo e Estado mínimo. Temos que ter o Estado necessário. Eu defendo inclusive a ideia de que seja um Estado mobilizador. Porque o Estado provedor, que faz tudo e ainda faz o resto, é um tipo que não deixa espaço para o empreendendorismo, para a inovação. Ele quer ser o dono de tudo. Mas (a resposta) também não é um Estado que acha que basta a regulamentação, que vai resolver pela dinâmica do mercado. O Estado tem um papel em relação à preservação dos direitos, de assegurar direitos.
Num país como o nosso, em que a educação é estratégica para o desenvolvimento, ela é uma obrigação do Estado. Num país como o nosso, em que as pessoas não têm acesso à saúde de qualidade, o Estado é fundamental para prover saúde de qualidade. Eu acredito num Estado que é capaz de mobilizar as melhores forças da sociedade civil, iniciativa privada, da academia, enfim, de todos os setores, principalmente daqueles que fazem o processo produtivo. Claro que no Brasil há espaço para empreendedorismo, e isso deve ser estimulado, mas não significa que deva acontecer em prejuízo das funções estratégicas e necessárias do Estado em temas que nos são muito caros.
BBC Brasil - A Petrobras é um bom exemplo de uma empresa controlada pelo governo e que acabou capturada politicamente, usada, através de superfaturamento para financiamento de campanhas e pagamentos de propina e suborno. A senhora acredita que se a Petrobras fosse uma empresa privada a Lava Jato não existiria?
Marina Silva - Em primeiro lugar, os problemas de corrupção não são apenas da Petrobras. Existem também na Eletrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica, nos fundos de pensão, em vários setores, em Belo Monte. É um problema sistêmico, quase generalizado. Portanto, o problema não é a forma da composição da Petrobras.
A Petrobras já é um processo misto, mas o Estado tem o controle acionário. Esse não é o problema. O problema é da falta de competência, de honestidade, de ética pública. Não se pode querer resolver problemas estruturais com manobras para se deslocar o assunto para um outro terreno. Se a Petrobras fosse privatizada não resolveria o problema.
O que resolveria é ter gestores honestos, políticos que não nomeiem diretores para desviar recursos da empresa para os seus partidos, para suas campanhas, para enriquecimento ilícito. É engraçado que as pessoas que fazem esse debate, de morrer de amores pela Petrobras, foram exatamente aquelas que levaram a empresa para essa situação de penúria em que está hoje com esta corrupção.
BBC Brasil - A senhora privatizaria a Petrobras se fosse presidente?
Marina Silva - Não. Acho que a forma como ela está instituída é uma forma que, numa gestão pública, correta, republicana, dá certo.
BBC Brasil - Para terminar, queria tocar no assunto ambiental. É possível compatibilizar crescimento e desenvolvimento sustentável? O Brasil é um grande exportador agrícola, tem uma indústria de porte razoável e muita pressão por subsídios. Como compatibilizar interesses de ruralistas, industriais e ambientalistas?
Marina Silva - Não acho que é uma questão de compatibilizar, é uma questão de integrar. Não tem como ter desenvolvimento com destruição das bases naturais. Só somos uma potência agrícola porque somos uma potência em recursos hídricos. Se destruirmos as florestas, vamos destruir o regime de chuvas. Sem chuvas, sem água, não tem como ter agricultura, indústria, desenvolvimento. A nova economia já não faz essa separação entre economia e ecologia. Isso é um pensamento do século 19 que perdurou há até bem pouco tempo.
O mundo inteiro está numa corrida para ver como viabilizar as metas do desenvolvimento sustentável; 195 países assinaram esse acordo de como vamos implementar essas metas na política agrícola, energética, industrial, em todos os setores. Quem está andando na contramão da história é quem quer manter a velha economia. Essa economia não é mais sustentável, porque logo logo vão precificar o carbono.
As economias de carbono intensivo vão pagar um preço muito alto por não terem feito o dever de casa e o Brasil pode resolver isso da forma mais adequada, porque já temos uma matriz energética limpa em 45%, somos um país com uma base tecnológica razoável. Temos uma base de conhecimento agrícola dentro da Embrapa que permite duplicar a produção sem precisar derrubar mais uma árvore. É só uma questão de visão, de estratégia correta, de colocar os investimentos da forma certa para o Brasil do século 21.
BBC Brasil - Existe um debate nas redes sociais com muitos dizendo que evangélicos têm um plano de tomar poder. De onde veio essa ideia? Ela tem pertinência?
Marina Silva - Primeiro há um desconhecimento da contribuição dos protestantes em relação à criação do Estado laico. A reforma protestante deu uma grande contribuição para que tivesse a separação entre igreja e Estado. Portanto, esse debate não deve nem precisa ignorar esse fato. Eu defendo o Estado laico, ele é bom para quem crê e para quem não crê, é bom para todos. É fundamental que numa democracia as pessoas tenham direito de se expressar livremente.
BBC Brasil - Então isso não existe?
Marina Silva - É um debate que está colocado, mas o fundamental é defendermos o Estado laico e recuperar suas origens.
BBC Brasil - Queria muito saber se a senhora vai ser candidata. Quando podemos ter uma definição?
Marina Silva - Logo.
BBC BRASIL - Logo esse ano, ano que vem...
Marina Silva - Logo, logo.
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

AMEAÇA EXPLÍCITA

Um vereador de Ponta Grossa fez ameaças à cantora Pabblo Vittar, convidada para se apresentar na abertura da festa mais importante da cidade, a München Fest. O problema do vereador Ezequiel Bueno, que é pastor evangélico, se deve ao fato de Pabllo ser uma drag queen.
Segundo declarações registradas pela repórter Mareli Martins em seu blog, o pastor acha que a cidade nem deveria receber o show, por ser conservadora. Mas, vá lá. “Quem quiser ir no show pode ir sem problema, desde que não seja com o meu dinheiro. E acho que vai pouca gente”, disse.
“Mas se [Pabllo] inventar de sair na rua ou nas escolas, eu vou prender. Mesmo que depois eu seja preso por abuso de autoridade. Eu não vou deixar uma pessoas dessas entrar nas escolas e ensinar diversidade sexual para as crianças. Ah mas é só um show, pastor, podem dizer. Sei lá, pois abriu a porta e aí é complicado”, afirmou.
Não se sabe qual lei o pastor pretende invocar para prender uma pessoa simplesmente por não gostar dela. No entanto, evidentemente o comportamento do próprio pastor, como ele próprio adiantou, poderia lhe garantir um bom tempo de cadeia.
O show de Pabllo Vittar na cidade está marcado para 5 de dezembro. Para ler mais sobre o assunto, visite o blog de Mareli Martins aqui.
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O TEMPO É DE ACORDO OU DE DESACORDO NACIONAL ?

Rudolfo Lago, Os Divergentes
Em frente ao Congresso Nacional, por um curto tempo na tarde desta segunda-feira (16), a placa de identificação do prédio foi alterada. Podia-se ler o seguinte: “Formação de quadrilha, corrupção ativa. O grande acordo nacional”. Pouco importa que o tempo em que tal alteração se manteve tenha sido curto. Na era da internet e das redes sociais, basta que dure os segundos suficientes para que viralize. E quanto mais ela viralizar, mais significará o quanto estará próxima do sentimento nacional. E a placa modificada com a mensagem de protesto viralizou…
E viralizou no momento em que o Congresso está às vésperas de decidir sobre duas questões cruciais, cada uma delas em uma das suas casas. A Câmara dará ou não autorização ao Supremo para dar prosseguimento ao segundo processo movido contra o presidente Michel Temer pela Procuradoria Geral da República? O Senado manterá ou não a decisão do Supremo de afastar do mandato Aécio Neves, proibindo-o também de sair de casa à noite?
Helena Chagas já definiu de maneira perfeita o dilema que acontece no Senado, que é mais ou menos semelhante ao da Câmara. Prevalece o Efeito Orloff do “eu sou você amanhã” ou o Efeito Murici que diz que em tempos bicudos “cada um cuida de si”? Algo que a frase de protesto também resume, optando, porém, pela conclusão quanto a um dos caminhos: avaliando que, em vez de “Congresso”, teríamos ali o “acordo nacional”.
O grande perigo desses nossos dias é que os poderes da República estão imensamente desequilibrados. Com uma novidade, porém, que torna o caldo ainda mais venenoso: ninguém hoje confia inteiramente em nenhum dos três Poderes. Na verdade, nessa estranha República brasileira, foram poucos de fato os momentos de equilíbrio entre eles. Vejamos desde o fim da ditadura militar. Quando Tancredo Neves morreu, assumiu o poder um fraco José Sarney. Com um fortíssimo Ulysses Guimarães presidindo ao mesmo tempo a Câmara dos Deputados e a Assembleia Nacional Constituinte. Tempos, então, de Legislativo forte se impondo sobre o Executivo.
Depois especialmente do escândalo dos Anões do Orçamento, foi-se construindo um tempo de Congresso desmoralizado. Com um Executivo que se fortaleceu no governo Fernando Henrique Cardoso e sobretudo no governo Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente depois que ele passou a posar de semideus venerado por seus eleitores e com altíssima popularidade.
Agora, temos Executivo e Legislativo desmoralizados pelos seguidos escândalos de corrupção. Com um Judiciário fortalecido. E com um braço independente que vai tomando ares de um quarto poder forte na República: o Ministério Público.
Já de algum tempo, antes da crise se tornar mais aguda, sentia-se a força do Judiciário no fenômeno que se batizou de “judicialização da política”: diante de um Legislativo intimidado e paralisado, mais e mais o Judiciário, especialmente o Supremo, começou a tomar decisões nas quais parecia legislar em nome do Congresso. E também foi-se construindo a força do Ministério Público.
A investigação da Lava-Jato e os seguidos escândalos generalizaram o questionamento sobre a forma de se fazer política e a relação entre financiadores e financiados, tornando todo mundo suspeito. Atingindo os primeiros escalões tanto do Executivo quanto do Legislativo. Naturalmente, os poderes tratam de tentar se proteger.
O rolo fica ainda mais complicado quando não se tem convicção quanto a todas as motivações do Ministério Público nos processos em que atua ou do Judiciário nos julgamentos e nas decisões que toma. Ou seja: quando se desconfia de tudo e de todos nesse tempo confuso e desesperançado em que vivemos. É o risco da placa de protesto, afinal, estar errada e vivermos, em vez de um “acordo nacional”, um tempo de absoluto “desacordo nacional”…
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IGUAL A SAL

Em 1992, então governador do Ceará, Ciro Gomes, em meio a uma greve de dois meses da classe médica da rede estadual, Ciro comparou os profissionais a sal: “Branco, barato e tem em todo lugar”.
Numa acinte à memória dos cearenses, Ciro foi nomeado Secretário de Saúde do Ceará, em setembro de 2013.
Ciro, que sofre de incontinência verbal, vociferou que acabaria com o ‘piscinão’ do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), em 90 dias; porque, segundo ele ‘tem as costas largas’. Balela. Não resolveu nada.
A inabilidade para o cargo serviu de válvula propulsora, e Ciro pediu demissão da pasta em janeiro desse ano.
18 de outubro, Dia do Médico.
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terça-feira, 17 de outubro de 2017

DE VOLTA AO SENADO

Do G1
O Senado derrubou nesta terça-feira (17), por 44 votos a 26, a decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) que havia determinado o afastamento de Aécio Neves (PSDB-MG) do mandato. Com isso, Aécio poderá retomar as atividades parlamentares.
SAIBA COMO VOTOU CADA SENADOR
Após a decisão do plenário, a assessoria de Aécio divulgou a seguinte nota:
"O senador Aécio Neves recebeu com serenidade a decisão do plenário do Senado Federal que lhe permite retomar o exercício do mandato conferido pelo voto de mais 7 milhões de mineiros. A decisão restabeleceu princípios essenciais de um Estado democrático, garantindo tanto a plenitude da representação popular, como o devido processo legal, assegurando ao senador a oportunidade de apresentar sua defesa e comprovar cabalmente na Justiça sua inocência em relação às falsas acusações das quais foi alvo."
Com base nas delações de executivos do grupo J&F, que controla a JBS, Aécio foi denunciado pela Procuradoria Geral da República (PGR) pelos crimes de obstrução de Justiça e organização criminosa.
Segundo a PGR, o tucano pediu e recebeu R$ 2 milhões da JBS como propina. A procuradoria afirma também que Aécio atuou em conjunto com o presidente Michel Temer para impedir o andamento da Lava Jato.
Desde o início das investigações, Aécio tem negado as acusações, afirmando ser "vítima de armação".
Crise institucional
A decisão da Primeira Turma do STF resultou em uma crise institucional entre os poderes Legislativo e Judiciário.
Diante da decisão do Senado de colocar em votação a ordem de afastamento, o plenário do STF decidiu na semana passada que cabe ao Congresso Nacional a palavra final sobre afastamento de parlamentares.
O formato da votação, porém, gerou polêmica e foi alvo de ação judicial.
Aliados de Aécio queriam que os votos fossem secretos, mas o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou votação aberta e nominal, na qual os votos de cada parlamentar são tornados públicos.
O presidente do Senado, Eunício de Oliveira (PMDB-CE), contudo, chegou a dizer que já havia decidido pela votação aberta antes mesmo da decisão de Alexandre de Moraes.
Para garantir o quórum necessário para a votação, senadores que estavam de licença médica, como Ronaldo Caiado (DEM-GO) e Paulo Bauer (PSDB-SC), decidiram ir ao Congresso para votar.
A sessão do Senado
A sessão para decidir sobre o afastamento de Aécio começou por volta das 17h e, ao todo, a discussão sobre o assunto durou cerca de três horas.
PMDB, PSDB, PP, PR, PRB, PROS e PTC orientaram os senadores das respectivas bancadas a votar "não", ou seja, contra o afastamento.
PT, PSB, Pode, PDT, PSC e Rede orientaram voto a favor da decisão da Turma do Supremo.
DEM e PSD liberaram os senadores a votar como quisessem.
Na tribuna, senadores se alternaram para discursar a favor ou contra o afastamento de Aécio.
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RECORDANDO JERÔNIMO PRADO

Fotos: da esq. para à dir. O prefeito Jerônimo Prado ao lado da primeira-dama dona Francisquinha Prado assina a Lei 214 que cria a Universidade Vale do Acaraú - UVA. O prefeito Jerônimo Prado, ao lado de seu filho, o secretário José Parente Prado inaugura a primeira praça do então distrito Forquilha. Sempre acompanhado de seu filho Zé Prado, Jerônimo Prado inaugura o primeiro colégio do distrito Olho d´Água – hoje Rafael Arruda.
Memória – Em 17 de outubro de 2003 morre em Sobral (CE), um dos maiores líderes políticos: Jerônimo Medeiros Prado. Nasceu em 15 de julho de1909, no povoado de São Vicente, distrito de Jaibaras, da cidade de Sobral. Em 1932 Jerônimo Prado mudou para Sobral com a família e dar início a uma nova fase de sua vida, começa a ser comerciante.
Em 1940 Jerônimo Prado funda em Sobral a Brasil Oiticica, era a pioneira no comércio de oleaginosas da zona norte do Ceará. Com o sucesso da empresa, Jerônimo Prado mais uma vez se aventura e investe na cultura sobralense e cria o primeiro cinema da cidade, o Cine Alvorada, que se tornou referência cultural no Ceará.
Em 1966, Jerônimo Prado é eleito prefeito de Sobral, começa então a saga da família Prado na política sobralense como exemplo de gestão séria com a participação popular. De 1967 a 1971, Sobral foi administrada por Jerônimo Prado.
Obras importantes foram construídas na gestão Jerônimo Prado: o Estádio Plácido Aderaldo Castelo, conhecido como Estádio do Junco. A adutora para o abastecimento de Sobral. Por meio da Lei Municipal número 214, de 23 de outubro de 1968 cria a Universidade Vale do Acaraú – UVA. A Universidade se torna referência no ensino superior e cultural no estado do Ceará.
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DENTRO DA IGREJA

Do G1, AM
Um homem, de 36 anos, que se apresentava como pastor, foi preso suspeito de estuprar um rapaz de 21 anos dentro de uma igreja na comunidade do Curari, em Careiro da Várzea, a 25 km de Manaus. Ele foi apresentado à imprensa na manhã desta sexta-feira (13). Wanderson Batista Garcia também é suspeito de abusar de três adolescentes.
De acordo com informações da Polícia Civil, Wanderson foi preso na manhã de quinta-feira (12), por volta das 10h, na terceira etapa do bairro Jorge Teixeira, Zona Leste de Manaus. Ele não quis comentar sobre as acusações durante a coletiva de imprensa.
Segundo o delegado David Jordão Gonçalves, titular da 35ª Delegacia Interativa de Polícia (DIP), o homem foi denunciado pelo estupro de um jovem que frequentava a igreja. Ele teria atraído a vítima a pretexto de realizar atividades noturnas no local.
"Ele se valia da condição de líder espiritual de comunidade e assim buscava ter um certo conhecimento, buscava ter uma certa proximidade e, após isso, ele realizava um pernoite da parte da igreja e praticava esse tipo de abuso", informou o delegado David Jordão.
O mandado de prisão preventiva em nome dele foi expedido no dia 21 de setembro deste ano.
Wanderson prestou depoimento na unidade policial e relatou que teve contato físico com a vítima sem conjunção carnal. Ele afirmou, ainda, que o fato acontecia com o consentimento do jovem.
De acordo com o delegado, três adolescentes – com idades entre 12 e 14 anos – também denunciaram o pastor.
Wanderson foi indiciado por estupro e, após os procedimentos cabíveis na 35ª DIP será levado ao Centro de Detenção Provisória Masculino (CDPM), onde permanecerá à disposição da Justiça.
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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

VOOS SIGILOSOS

A Justiça de Minas Gerais determinou que o Estado divulgue informações sobre voos fretados pelo governador Fernando Pimentel (PT), que passaram a ser consideradas sigilosas durante o seu mandato.
A decisão, do juiz Michel Curi e Silva, da 1ª Vara da Fazenda Pública em Belo Horizonte, determina que o chefe do gabinete militar do governador libere informações sobre os voos realizados por Pimentel em 2015 junto à empresa Líder Táxi Aéreo, com data, trajeto, lista de passageiros e motivo da viagem.
Ainda manda que o gabinete diga qual era a situação de cada aeronave do governo nas datas em que Pimentel usou o serviço de fretamento.
O pedido à Justiça foi feito pelo deputado estadual Sargento Rodrigues (PDT) e é uma das duas ações protocoladas na Justiça mineira após a Folha revelar que o governo passou a entender que os voos do governador eram sigilosos.
A gestão Pimentel argumenta que, se divulgadas, as  informações colocariam em risco a segurança do governador e da sua família.
"Não há falar-se em perigo à segurança do Senhor Governador, mormente quando se vê que as informações pleiteadas se referem a fatos pretéritos e a rotas traçadas no ano de 2015", diz o juiz em sua decisão.
"Ressalto que o impetrante é detentor de mandato popular, o que o legitima ainda mais a postular as informações."
Procurado pela reportagem, o governo de Minas Gerais informou que a Advocacia-Geral do Estado "vai recorrer e requerer que seja atribuído efeito suspensivo à sentença".
O outro processo que pede informações sobre os voos do governador, de autoria do advogado Mariel Marley Marra, ainda não foi julgado.
A ação de Marra pede o registro dos voos realizados por Pimentel entre janeiro e abril de 2016, com informações sobre os trechos percorridos, as datas e quem acompanhava o governador.
DECRETO
O governo de Minas tem argumentado que se baseia em um decreto de 2012 –que pede sigilo a informações que coloquem em risco a segurança do governador e da sua família– para não divulgar os dados. Eles seriam liberados ao fim do mandato.
No entanto, as informações que agora são sigilosas já haviam sido disponibilizadas à Folha via Lei de Acesso à Informação em outubro de 2015. A reportagem voltou a pedir os dados atualizados depois, mas eles foram negados.
No começo do ano, o tema dos voos de Pimentel voltou a repercutir após o governador ter usado um helicóptero do Estado para buscar o filho em uma festa de Ano-Novo interior de Minas. 
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IRMÃO SUSPEITO

O dono do imóvel que abrigava a fortuna de R$ 51 milhões atribuída ao ex-ministro Geddel Vieira Lima (PDMB), Silvio da Silveira, afirmou à Polícia Federal que entregou as chaves do apartamento nas mãos do deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) no começo de 2016.
A administradora do prédio, Patrícia Queiroz dos Santos, em depoimento à PF, confirmou as informações de Silveira.
Segundo documentos a que a Folha teve acesso, ela disse também que já presenciou uma ligação do empresário, do ramo da construção, para "os irmãos" pedindo ajuda para a pavimentação de vias na Bahia.
Silveira disse à polícia que tem relação de amizade com Lúcio há dez anos.
Os depoimentos de ambos foram alguns dos elementos da investigação que embasaram as buscas no gabinete e no imóvel do parlamentar Lúcio Vieira Lima nesta segunda-feira (16).
DEPOIMENTOS
O dono do imóvel onde estava o bunker de Geddel contou à PF que inicialmente emprestou a Lúcio o apartamento número 202. A unidade, porém, foi vendida em seguida e, então, disponibilizou o número 201 para o amigo.
O pedido foi feito após a morte do pai dos irmãos, Afrísio Vieira Lima, em janeiro de 2016.
"Que considerando a amizade o declarante concordou prontamente [com o pedido de Lúcio], chegando na unidade 202 juntamento com Lúcio para lhe mostrar o apartamento e lhe entregar a chave. Que na ocasião Lúcio recebeu a chave, mas não trazia consigo nenhum pertence. Que ainda em 2016 a unidade 202 foi vendida e então o declarante ofereceu o apartamento vizinho de frente, ou seja, o 201, o que foi de fato recebido por Lúcio", consta no termo de depoimento de Silveira.
Segundo o empresário, poucas unidades foram vendidas no local. De acordo com apuração da reportagem, há atualmente apenas cinco moradores no edifício.
À PF, a administradora do prédio em que foi encontrado o "tesouro" de Geddel disse que o ex-ministro e o irmão não pagavam aluguel pelo uso do local. Porém, relatou já ter visto Silveira pedir favores à dupla.
"Já viu foi Sílvio ligando para os irmãos, por exemplo, para pedir que vias sejam pavimentadas em acessos de empreendimentos que as empresas do grupo do qual Sílvio faz parte fizeram a construção", declarou, segundo transcrição da PF.
Patrícia disse que os irmãos têm alguma relação com Silveira, não sabendo afirmar se apenas profissional ou de amizade. Ela confirmou que o apartamento foi cedido pelo empresário a "Lúcio e Geddel", para guardar supostamente pertences do pai, que falecera no início de 2016.
A administradora também corroborou com a versão de que os irmãos deixaram "algumas malas e caixas" inicialmente na unidade 202.
"Não pode precisar se foram os próprios Lúcio ou Geddel quem se responsabilizaram (sic) por levar as malas e caixas, já que não estava no local naquela oportunidade", acrescentou.
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O LABIRINTO DE NOSSOS ERROS

Artigo de Cristovam Buarque, O GLOBO
O jornalista Roberto D’Ávila me perguntou como chegamos à situação em que nos encontramos e na qual parecemos aprisionados.
A sensação é de que fomos cometendo erros, como se dobrássemos esquinas caminhando por um labirinto, sem saber o caminho de volta, ainda menos de ida: para fora das amarras que nos impedem de progredir civilizada e sustentavelmente.
O labirinto se inicia com a escravidão e o latifúndio, mas não temos desculpas para os erros dos caminhos tomados nas últimas décadas, que foram contaminando o Estado, a economia e a sociedade por erros na política.
Dobramos uma esquina do labirinto ao conquistarmos a democracia e fazermos uma Constituição para apagar o passado autoritário, mas sem usá-la para construir o futuro da nação. Garantimos direitos sem determinar deveres, sem definir sentimento de coesão nacional.
Ficamos presos ao imediato de cada grupo sem instrumentos nem vontade para formular e construir o rumo para todos no longo prazo.
Nos aprofundamos no labirinto por causa do endividamento público e privado, sem responsabilidade, de acordo com nossos recursos; derrubamos florestas, secamos rios; transformamos nossas cidades em “monstrópoles” divididas por “mediterrâneos invisíveis”. Protegemos com subsídios empresas ineficientes, sem buscar aumentar produtividade, competência, inovação.
Elegemos governos progressistas, mas eles não fizeram as reformas necessárias; dobramos uma esquina do labirinto usando o Estado para financiar campanhas eleitorais com propinas e dando emprego a afilhados dos políticos e a filiados dos partidos, sem respeito à competência dos nomeados.
Depois do impeachment, no lugar de recuperar a credibilidade na política, pedida por milhões nas ruas, embrenhamo-nos no labirinto, com o vice-presidente aparecendo sob suspeita de conivência com a corrupção.
O mergulho no labirinto foi aprofundado por parlamentares que aprovam leis sem o necessário rigor, olhando o imediato e seus próprios interesses eleitorais; cortamos verba para setores prioritários e liberamos recursos públicos para financiar campanhas eleitorais.
Os tribunais, que trazem a esperança do enfrentamento da corrupção, agravam o caminho labiríntico ao se viciarem em privilégios e ao criarem instabilidade jurídica.
A injustiça social, a impunidade legal, o incentivo obsessivo ao consumo, a falta de bons exemplos vindos dos quadros dirigentes, aprofundaram a marcha adentro no labirinto. Para sair dele, seria fundamental dispor de interpretações atualizadas sobre a crise da modernidade e o futuro do Brasil, mas nossas universidades parecem aceitar passivamente o contínuo caminhar no labirinto, sem inovação ou ineditismo e até sem respeito ao mérito.
O labirinto é o resultado de sucessivas escolhas erradas ao longo da história, mas a principal foi o descuido com a educação de nossas crianças, do nascimento até a vida adulta.
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NUNCA QUISEMOS SER ZAGALLOS

Ricardo Soares, DomTotal
Ah, senhoras e senhores. Não vou aqui , já passado o limiar do século 21 ,ficar arrastando correntes na tentativa séria, sisuda e formal de tentar escrever um crônica- inventário sobre a minha geração.
A geração que precedeu a minha , com todo respeito, levou-se mais a sério, soube se “vender”melhor. Para o bem e para o mal. Alinhou suas histórias com tintas fortes e pesadas, com tons plúmbeos onde aparecem as muitas agruras do regime ditatorial de 1964, as torturas,os presos políticos, os discursos e divergências ideológicas. Se tudo isso produziu pouca ficção de qualidade é matéria discutível. Mas produziu boa memória, boas biografias, bons registros históricos que no entanto intoxicaram os que vieram logo em seguida fartos dos jargões tantas vezes repetidos. Na verdade muitos de nós nos cansamos dos mesmos mártires e torturados  hoje icônicos de uma época que não devemos esquecer mas que produziu uma infinidade de variações sobre o mesmo tema.
Quero pois me libertar desses grilhões e contar as coisas ao meu modo. Se for uma colagem escalafobética que assim seja. Os tempos também foram assim e não organizados com a parcimônia histórica que a geração que nos precede parece querer impor.
Somos a geração chiclete com banana, a  geração Chacrinha , a geração que juntou National Kid com o “Vigilante Rodoviário” que mesclou Rubem Fonseca com o clã Marvel , que mixou Stones, Tropicália, Luiz Gonzaga, Led Zeppelin e Chico Buarque com Novos Baianos , Jorge Bem e Jorge Mautner.
Muitos poetas desfolharam as nossas bandeiras , fomos “Mutantes” em busca da identidade , fugimos da vaia com Tim Maia. Ali ,senhoras e senhores, levantamos estandartes vermelhos e ,crianças, nos cobrimos de verde e amarelo no gesto sincero do tri no México 70. Quisemos ser Jairzinho , Pelé, Tostão , Rivelino, Carlos Alberto... mas nunca, nem crianças e nem adultos quisemos ser Zagalos.
Não nos cobrem coerência pois somos o subproduto cultural da mistura do cinema novo com Mazzaropi, da pornochanchada com Rogério Sganzerla. Gravitamos do oráculo dos poemas concretos ao “Poema Sujo” de Gullar e assim buscamos um lugar além da rima óbvia. Copacabana misturada com  Brasília, Vieira Souto com  Santa Cecília , tudo para  tentar contar a história de outro jeito.
O jeito daquilo que se passa acima e abaixo do Minhocão, o jeito daquilo que se passa fora e dentro do Circo Voador,dos exílios voluntários e involuntários daquele sismo histórico que funde Allende com Tancredo, Videla com Franco Montoro, Brizola com Pinochet, Darcy Ribeiro com moral e civica , Sambódromo com parada militar. O sabor e o dissabor da contradição. Isso talvez defina aquilo que fomos. Isso talvez defina o que somos. Por isso não me cobrem uma história reta, ereta,linear. Não tenho capacidade para isso.
Ah, senhoras e senhores. E mesmo que nada disso esteja certo que tudo isso seja uma desculpa ou justificativa para a miscelânea só posso lhes responder que sou um homem sincero e só assim , sinceramente, sei fazer nesses tempos horríveis onde tanta gente nefasta clama por ditaduras .
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A CORRUPÇÃO FARDADA

Da ÉPOCA
Entre maio de 2009 e março de 2010, a conta-corrente do coronel do Exército Odilson Riquelme, no Banco do Brasil, recebeu dois cheques no valor total de R$ 37.373. Os depósitos se repetiram nos meses seguintes. Os cheques foram emitidos pela empresa Sequipe, prestadora de serviços de quimioterapia ao Hospital Militar de Área de Recife (HMAR), onde Riquelme cuidava dos contratos. Os valores equivaliam a 10% dos pagamentos feitos à Sequipe pelos contratos com o hospital. Os investigadores do Ministério Público Militar (MPM) descobriram o esquema após denúncia de um ex-funcionário. Confirmou-se que o dinheiro – R$ 205 mil no total – havia sido pedido à empresa pelo então diretor do HMAR, coronel Francisco Monteiro. Ele alegou que seriam “doações” para o hospital. Mas cheques obtidos pelos investigadores mostraram que o dinheiro acabou em contas-correntes dos militares e de pessoas ligadas a eles, não no caixa do hospital.
O caso do coronel Riquelme está longe de ser uma exceção nas Forças Armadas Brasileiras. Embora persista o mito de que os militares são mais honestos do que os civis no trato com a coisa pública, não há evidência empírica disso. Tanto militares quanto civis desviam recursos públicos, fraudam licitações, pedem e recebem propina. Não há estudos que indiquem qualquer distinção entre a escala de corrupção nos mundos civil e militar. Pelas teorias mais recentes na literatura sobre corrupção, duas coisas, em especial, tendem a aumentar as chances de tunga aos cofres públicos: oportunidades para roubar e a percepção de que não haverá punição. Ambas existem, no Brasil, entre militares e civis. Estes não são especialmente desonestos. Aqueles não são especialmente probos.
Registros da Procuradoria-Geral de Justiça Militar, obtidos com exclusividade por ÉPOCA, expõem os abusos com dinheiro público nas Forças Armadas. São 255 processos pelo crime de peculato (desvio de dinheiro público em proveito próprio) e 60 por corrupção ativa ou passiva – todos abertos nos últimos cinco anos. Sim, também há corrupção no Exército, na Marinha e na Aeronáutica. O material foi remetido ao Tribunal de Contas da União (TCU); investigadores da Corte estão destrinchando irregularidades encontradas nas três Forças, com prejuízos milionários aos cofres públicos. Os casos restringem-se a danos ao Erário superiores a R$ 100 mil. ÉPOCA teve acesso à documentação do processo sigiloso do TCU e traça nesta reportagem um panorama de casos detalhados envolvendo militares.
O valor estimado de prejuízo aos cofres públicos nesses principais casos é de R$ 30 milhões, mas, a depender do avançar das investigações, pode se revelar maior. O levantamento não inclui processos contra militares ajuizados na Justiça comum – os casos da Justiça Militar são de crimes que provocam prejuízo apenas às Forças Armadas. Num país acostumado a flagrantes de malas de dinheiro rodando com políticos e desvios na casa de bilhões na Petrobras, parece mixaria. Esses R$ 30 milhões são pouco mais que a metade da fortuna encontrada no apartamento associado ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, apenas um entre mais de uma centena de investigados pela Operação Lava Jato. São valores bem mais modestos ainda que os registrados no sistema de propina da Odebrecht, como os R$ 300 milhões que a empresa afirma ter destinado ao PT para ajudar os planos do ex-presidente Lula. Mas é uma questão de escala. Os militares administram um orçamento anual de R$ 86 bilhões, quase tudo atrelado a salários e pensões; apenas R$ 7 bilhões são gastos ou investimentos e estão, portanto, sujeitos a desvios como esses investigados. Militares não têm acesso aos maiores cofres do governo federal, não fazem campanha eleitoral e não têm conexões no Congresso para aprovar leis. Ou seja, têm menos oportunidades de fazer negociatas.
Embora os casos não apontem um cenário de corrupção institucionalizada e generalizada, os processos trincam o argumento recentemente vociferado por apoiadores de uma estapafúrdia intervenção militar como solução para a crise atual, como defendido recentemente pelo general do Exército Antonio Hamilton Martins Mourão. Confortável, usando um uniforme repleto de medalhas no peito diante de uma plateia dócil em uma loja maçônica de Brasília, em 15 de setembro o general acenou com a possibilidade de intervenção militar para extirpar os corruptos da vida pública. “Ou as instituições solucionam o problema político, ou pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos de impor isso”, disse Mourão. Seu discurso foi defendido pelo deputado federal, ex-militar e presidenciável Jair Bolsonaro, do PSC do Rio de Janeiro. O deputado Cabo Daciolo, do Avante-RJ, gravou um vídeo afirmando viver uma “falsa democracia”. “Não estamos pedindo uma ditadura militar, estamos falando de um governo provisório: tira os corruptos, os bandidos.”
Ouvidas as palavras do general Mourão na maçonaria e de seus apoiadores, soa irônico que até a Lava Jato tenha pilhado militares em casos de corrupção. O vice-almirante da Marinha Othon Pinheiro da Silva, que comandou a estatal Eletronuclear, foi condenado a 43 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e organização criminosa nas obras da usina nuclear de Angra 3, acusado de receber R$ 4,5 milhões de propina. Sua defesa diz que os pagamentos eram por uma consultoria feita às empreiteiras antes de assumir a Eletronuclear. Segundo o TCU, existem indícios de que as Forças Armadas não tomam as providências necessárias para recompor o prejuízo aos cofres públicos causados pela corrupção em suas fileiras. “Foi constatado que havia casos em que o Exército deveria ter instaurado a tomada de contas especial para apurar os fatos, e não o fez”, afirma o tribunal. Em março deste ano, o TCU abriu um processo para apurar “possíveis irregularidades relacionadas com a não instauração de tomadas de contas especiais para apurar dano ao Erário” e deu prazo de 180 dias para que o Comando do Exército apure o prejuízo causado pelos problemas na gestão do Hospital Militar de Área de Recife e em possíveis irregularidades em obras do Instituto Militar de Engenharia.
Trecho da reportagem de capa de ÉPOCA desta semana. Leia a reportagem completa na edição de ÉPOCA que já está nas bancas.
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domingo, 15 de outubro de 2017

DE VOLTA AO ANO QUE VEM

Artigo de Fernando Gabeira
As pesquisas confirmam o que quase todos sentimos nas ruas: as pessoas querem mudança e consideram as eleições de 2018 o melhor caminho para impulsioná-la. É uma boa notícia, cercada de dados negativos. Um deles é a reforma política nada amigável às mudanças. O velho sistema político partidário parte com uma vantagem financeira respeitável: um fundo eleitoral de R$ 1,8 bilhão.
E a decisão do Supremo é outro dado da blindagem dos políticos: o Congresso deve rever em 24 horas todas as medidas cautelares que atinjam o exercício do mandato. Isto significa que, se o STF afastar um senador, certamente seus pares vão anular a medida. A última palavra, nesse caso, não pertence mais aos juízes. O sistema político partidário deve estar comemorando. Aécio também. Mas, se analisarmos o contexto da disposição popular, essas medidas vão acabar isolando mais ainda os detentores de mandatos políticos. Pelo menos teoricamente, para se salvar das investigações e de suas consequências, o sistema partidário terá de ir mais longe no seu longo processo de suicídio. Naturalmente, a disposição pela mudança não é suficiente para que ela aconteça. Há muitas arestas a aparar.
Tenho refletido e lido sobre o conceito de tolerância. Cheguei à conclusão de que é muito flexível, depende de circunstâncias históricas, de quem tolera ou é tolerado. A tolerância como conceito moderno nasceu do liberalismo e é um fruto das guerras religiosas e da separação entre as autoridades do estado e da igreja, abrindo uma brecha para o indivíduo diante dessas forças gigantescas. Mais urgente que falar dela é tentar entender o quadro em que se move.
Tenho observado um deslocamento de calores no debate político brasileiro. No período anterior à queda de Dilma, o confronto se dava, além, é claro, da roubalheira, em torno de sistemas políticos. Tanto que os adversários do PT sempre diziam: “vai para Cuba, vai para Cuba”. Nem o mais radical dos críticos do artista pelado no MAM ousaria mandá-lo para Cuba, por achar a pena pesada demais. Toda uma geração de artistas foi esmagada pela revolução cubana — isto é bem descrito nos livros de Reinaldo Arenas. Durante muito tempo, a revolução decidiu encerrar homossexuais em campos de trabalho.
A sensação que tenho é de que o choque entre socialismo e capitalismo está em segundo plano. Sobe para o topo uma espécie de resistência à globalização e suas tendências multiculturais. Isso aconteceu na eleição de Trump e também na vitória do Brexit. Só que até nos Estados Unidos a globalização é sentida por alguns setores como uma ameaça econômica, perda de postos de trabalho, ruína de regiões que perdem sua competitividade global. No Brasil ninguém vê a globalização como causa da crise. Todos sabem que a nossa foi causada pela incompetência e pela corrupção das forças internas. No entanto, no campo dos costumes e, sobretudo, com a aceleração do mundo digital, muitas famílias se sentem inseguras diante de rápidas mudanças e temem por seus valores, tradição e até mesmo pela ideia que têm da própria identidade nacional.
O debate sobre os caminhos da saída econômica revela uma predominância do liberalismo. Ainda assim, no Brasil, isso precisa ser relativizado. O MBL, um movimento que se destacou na oposição ao governo de esquerda, tem uma clara opção liberal. No entanto, nos temas comportamentais, aproxima-se da posição de Bolsonaro. Este, por sua vez, apesar de seu enfoque nacionalista, se aproxima do liberalismo econômico. Essa discrepância em adotar o liberalismo econômico, abertura para o mundo, e, simultaneamente, combater algumas de suas consequências é apenas um dado. Os chineses sabem combinar elementos de liberalismo econômico com seu regime político de um só partido. Posições liberais na economia não correspondem mecanicamente a uma posição liberal nos costumes. Aqui, os artistas continuarão produzindo com liberdade e, em certos momentos, sendo provocativos como têm sido em toda a história da arte. E uma maioria da população tende a sentir-se ultrajada por saber que, apesar de maioria, sua visão de mundo não é levada em conta. Verdades políticas surgem daí. As duas mais visíveis são a tentativa de articular o desconforto com certas consequências do mundo moderno e a outra se entrincheirar em ideias de vanguarda descartando a opinião majoritária como atrasada. Nenhuma delas me parece adequada para o Brasil.
A admiração com que Barack Obama foi recebido aqui mostra que existe uma simpatia por posições que tentam navegar de olhos abertos para um mundo em transformação sem perder o contato com o fio terra. A própria Angela Merkel venceu uma grande batalha pela tolerância ao receber os imigrantes. Conseguiu se reeleger. Sempre foi crítica da trajetória do multiculturalismo, que acaba deixando ao relento o pobre, que não está integrado em nenhuma das identidades culturais que disputam o espaço.
Isso que chamo de pé na terra, por falta de melhor definição, pode ser, no Brasil, essencial para tirar o barco do lodo.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 15/10/2017
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PROFESSOR POR AMOR

Em setembro de 2011, então governador do Ceará, Cid Gomes ( hoje, ex-ministro miojo da Educação), participando de um congresso sobre educação em Natal (RN), fez um comentário sobre os educadores, disse que os professores deviam dar aula por amor.
Cid governou o Ceará por oito anos – um funcionário do serviço público – dando expediente sem amor no Palácio da Abolição, mas feliz com a dinheirama que caía em sua conta todo mês.
Cid Gomes foi o único governador do nordeste que entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal (STF), para não pagar o piso salarial dos professores no valor de R$ 950.
Num agradecimento à fidelidade e votação expressiva que recebeu no Ceará, a presidente Dilma nomeou Cid Gomes, ministro da Educação. Um tapa na cara da classe. Uma acinte aos brasileiros.
Mas a inabilidade de Cid para o cargo foi comprovada rapidamente, ficou apenas 78 dias na pasta. Hoje, ele é conhecido como ex-ministro miojo: instantâneo.
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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

BOLSONARO SEM RETOQUES

Bernardo Mello Franco, Folha de S.Paulo
BRASÍLIA - Jair Bolsonaro desembarcou nos Estados Unidos para divulgar sua candidatura a presidente. Em segundo lugar nas pesquisas, o deputado tenta suavizar o discurso para parecer menos radical. É um bom momento para ouvir o que ele dizia antes de sonhar com o Planalto.
Em 1999, o capitão reformado expôs suas ideias no programa "Câmera Aberta", na Bandeirantes. Em 35 minutos, ele defendeu a ditadura e a tortura, pregou o fechamento do Congresso e disse que o Brasil precisava de uma guerra civil, mesmo que isso provocasse a morte de inocentes.
A entrevista mostra um Bolsonaro sem retoques. À vontade, ele se gaba de sonegar impostos e estimula os telespectadores a fazerem o mesmo. "Conselho meu e eu faço. Eu sonego tudo que for possível", afirma. Depois, diz que a democracia é uma "porcaria" e conta o que faria se chegasse ao poder: "Daria golpe no mesmo dia. Não funciona".
O deputado afirma que Chico Lopes, ex-presidente do Banco Central, merecia ser torturado em pleno Senado. "Dá porrada no Chico Lopes. Eu até sou favorável a CPI, no caso do Chico Lopes, tivesse pau de arara lá. Ele merecia isso: pau de arara. Funciona. Eu sou favorável à tortura."
Mais adiante, Bolsonaro defende o fuzilamento do presidente Fernando Henrique e revela desprezo pelas eleições diretas: "Através do voto, você não vai mudar nada neste país. Nada, absolutamente nada. Você só vai mudar, infelizmente, quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro. E fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando 30 mil, e começando por FHC".
O apresentador Jair Marchesini ainda ensaia conter o deputado. Ele insiste: "Matando. Se vai [sic] morrer alguns inocentes, tudo bem. Tudo quanto é guerra, morre inocente".
Bolsonaro não era um jovem desavisado ao dar essas declarações, que podem ser vistas no YouTube. Tinha 44 anos e exercia o terceiro mandato de deputado —hoje está no sétimo. Era filiado ao PPB (atual PP), o partido de Paulo Maluf.
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